Olá
ou: auto-indulgência na miséria
Ahah. Pensando na cronologia dos acontecimentos, mantive uma rotina de escrita até meados de agosto, momento em que fui à Ucrânia (yes, that happened) e daí voei direta para a Bélgica, onde permaneço até hoje. Por conta das minhas férias de Natal, tive um pequeno interlúdio na minha hibernação literária e escrevi sobre o contexto que tem ditado o meu prolongado silêncio, já que me encontro a fazer um mestrado bastante sui generis, tanto nos termos académicos como nos termos sociais.1 Se falar das idiossincrasias do meu mestrado não vem agora ao caso, basta dizer que, para além de ser bastante intensivo (escrevi, entreguei e defendi a tese no espaço de 2 meses com aulas e exames), é também bastante intenso (vivo em conjunto com todos os meus colegas de mestrado, imaginando tudo o que isso implica).
Utilizar os últimos 10 meses para justificar o meu silêncio tumular pareceu-me bastante infantil e uma tentativa de esquivar-me às responsabilidades que deveria ter para com as minhas ambições. “uwu a minha vida está muito intensa agora”. Por isso talvez não lhe atribua uma estampa de justificação, mas somente a de adenda.
-Não consigo escrever porque tenho tantas coisas para fazer, a tese, os exames, a vida social, o networking, as sociedades estudantis!
vs.
-Não escrevo porque me falta a disciplina. Ainda que a substitua por outros compromissos ditos produtivos, ou úteis, que potencialmente beneficiam a minha vida profissional, tão pouco justificam a verdade inabalável de que a disciplina a que me imponho é volátil, e que por isso pouca pressão exerce para melhorar a minha escrita dia após dia.
A parte mais inacreditável de todas é que é uma dormência intelectual perante os meus próprios objetivos: gostaria de escrever mais e melhor, gostaria de ser reconhecida na minha escrita. Porém, acredito que a maioria se reconhece na minha ansiedade quando confrontada com o meu potencial. Na dúvida se sou uma merda no que gosto de fazer, recorrer à auto-indulgência e não confrontar-me de todo ajuda sempre.
Porém, as justificações muito circunstanciais começam finalmente a dissipar-se, e a uma velocidade vertiginosa. O meu mestrado acaba na sexta-feira (daqui a 2 dias), momento em que voltarei recambiada para Portugal para casa dos meus pais. Ainda sem emprego, sem dinheiro (no money, no family, sixteen in the middle of Miami ), prevejo que não vou conseguir sacudir de mim a nuvem negra que me convence de que as minhas miragens de sucesso eram apenas delírio.
Uns dias são melhores, outros piores. Ontem, pela primeira vez, chorei a meio de uma videochamada com a minha mãe sobre o facto de acabar o mestrado e voltar para Portugal. Ela nem me perguntou nada, eu só estava a detalhar a logística dos próximos 4 dias. Entre fazer malas, beber e sair todos os dias, mais as cerimónias oficiais e a minha graduação, apenas ontem à noite tive tempo para me constatar de que estou triste e ansiosa por ter de ir enfrentar vazio de perspectivas e direção que tenho pela frente. E se o vazio significa uma migalha do que vão ser 40 anos de trabalho e carreira, também queria ter a palmadinha nas costas que os últimos 10 meses foram tão oníricos que me apetece ainda menos cair na real.
Mas vá, lá vou eu. Como é, afinal, Gaspar Noé? Enter the void. Há que escrever de novo. É sempre assustador depender da minha determinação e asceticismo, particularmente depois de 10 meses com muito pouco de ambos. Diverti me infamemente e trabalhei pouco. Para quem estava a tirar um mestrado, curiosamente sinto que exercitei pouco o intelecto, ou pelo menos os momentos de ócio que sempre culminavam em alguma escrita criativa. Li pouquíssimo, ainda menos em português. Traio o meu pensamento e assassino os meus rascunhos com anglicismos. Estou enferrujada, a escrita não flui (na minha cabeça pensei “ i’m rusty” e fiz o esforço de encontrar a mesma palavra na minha língua materna.”). And yet, we dance, and yet we love2. Ou melhor, and yet we write.
Obrigada por leres less than zero.
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Vemo-nos em breve!
Isabel Lobo
Para quem tiver curiosidade, neste texto detalho em concreto a minha experiência no Colégio da Europa https://www.desatempo.pt/blog/federalismo-europeu-colegio-da-europa-e-consciencia-de-classe-entram-num-bar





Ainda no meio do mestrado e a sentir tudo o que escreves [sempre tão bem]. Welcome back, Isabel, tivemos saudades
Estou também a passar pela fase final do mestrado. Ainda me resta um mês em Londres, mas já começo a sentir bem essa nostalgia que descreves. Um ano que parece um sonho, afinal, chega mesmo ao fim… 🥲