Notas sobre Pós-Modernismo, ou "Sinais de Fumo" por Alex Couto
Como saber o que é relevante transladar do presente para a literatura, se ainda o vivemos?
“Sinais de Fumo é diferente, é inventivo, é provocador. Ou seja, é necessário”. Esta é a resenha de Rita da Nova1 estampada na segunda orelha do meu exemplar de Sinais de Fumo, e da qual retiro entendimento semelhante.
A minha convicção mais profunda sobre livros é igualmente a que dita a minha opinião final sobre ele, e se o respeito enquanto empreendimento: o autor ter algo para dizer. A Literatura é uma instituição com uma fachada que se estende para lá das nuvens do conhecimento, uma figura imponente que nos obriga a ponderar, uma e outra vez, se ao ousarmos entrar com passinhos de lã na sua casa, não estaremos a macular a entrada com pegadas de sujidade, ao invés de entrarmos ao som de uma marcha retumbante. E acho que o critério é precisamente este: Alex Couto tem uma visão clara do que traz enquanto Autor. A execução da visão que tinha para o livro, acho que não enche tanto as medidas, mas a ideia a que se propõe, é irredutivelmente sua e original. E por isso é necessária.
Ideia
A primeira interpretação que se retira da “ideia” por detrás do livro seria que este nasceu em torno de alguns pontos essenciais: Setúbal em sentido lato, Bairro do Viso no sentido estrito; questões de classe; narração pós-moderna. As ideias do livro misturam-se com as capacidades diferenciadoras do Autor. Alex sabe quais são os seus pontos fortes: uma história formativa num bairro da Margem Sul, uma imersão prolongada e apaixonada em narrativas cinematográficas e na cultura pop norte-americana, uma grande acuidade para entender a relevância de momentos da História (Troika) na compreensão de fenómenos geracionais (Millennials). E neste sentido, acho que Alex sofre (no bom e no mau sentido) de um fenómeno que ataca a todos os criativos aos quais ainda está para chegar o seu I made it moment (eu incluída): somos reféns das nossas próprias características diferenciadoras. No medo e na angústia de não sermos bons o suficientes pelos parâmetros do Homem médio, atracamo-nos ansiosamente às nossas características diferenciadoras, porque na descrição das vivências individuais nunca mais ninguém será melhor que nós. Isto funciona, mas apenas até a um certo ponto.
Execução
É precisamente este o ponto a que quero chegar. O enredo serve o Autor e as suas pretensões - o que tem um lado bom, e igualmente um lado mau. O lado bom, é que as suas características diferenciadoras são realmente diferenciadoras e interessantes, o que sustenta o interesse no livro. O lado mau, é que sem elas, acho que o enredo, o propósito do livro cai como um baralho de cartas.
O livro trata de um grupo de bandidos sadinos que, em apertos financeiros em plena crise da Troika, decidem mudar de estratégia e fundar uma empresa de venda de canábis recorrendo a uma lacuna legal. Numa “narrativa sempre à beira do colapso total”2 , vemos as estratégias feitas em cima do joelho de um grupo de chavalos que veem o empreendedorismo precário como uma forma de se reinventarem num trajeto de vida condenado à mediocridade e esquecimento. Infelizmente, o enredo serve mais a ideia do que o Alex acredita que traz em capacidade diferenciadora enquanto Autor, do que verdadeiramente ser uma conceção genuína. Não dá a crer que o Autor se importe assim tanto com as personagens do mundo que criou. Há pouca desenvoltura emocional das personagens enquanto indivíduos - Charlie, Princesa Diana, Eddy, Bunny, Alex - apenas sabemos ao de leve os seus traços de personalidade mais vincados. Porque é que o Charlie era um traumatizado que recorria logo para a violência? Apenas sabemos que por falta dos pais. Porque é que a Princesa Diana traiu Charlie com Eddy, porquê o apego tão devoto de Charlie a esta princesa traficante (algo mais profundo que “cara tão delicada que inspirava vassalagem”)? Poderia ser algo nas estrelinhas, mas não foi executado de forma eficaz a indicar-nos as entrelinhas exatas na qual o leitor poderia romancear. Ficou por considerar, de forma pura e dura.
As personagens serviram um propósito maior que eles próprios - caracterizar a personagem coletiva e talvez abstrata do bairrista - que pode ser uma decisão consciente do Autor, mas que fica difícil de justificar atendendo ao parâmetros clássicos literários. Acima de tudo, a desenvoltura emocional dos personagens faz-nos importar-nos com eles. Sem um enredo forte, a forma pouco consegue sustentar-se sozinha. Faltou-me, na experiência de leitora, um apego maior às suas histórias individuais.
Não obstante, acho que é na forma narrativa que Alex realmente se destaca, e da qual tenho pontos relevantes a destacar.
Não há dúvidas que o estilo literário é uma tradução direta de uma narração visual. Parece-me que o mais fantástico neste livro é o diálogo entre referências, e não falo das referências deixadas ao longo do livro sobre artistas, músicas ou símbolos da era digital - mas um diálogo entre formas de arte. Pondo-o de forma simplista, a escrita parecer vir bem mais inspirada de narrativas visuais, e não de narrativas literárias, o que revoluciona a forma como vemos a escrita. O enredo desenrola-se constantemente à beira do colapso, tal e qual um script de um filme de ação tragicómico. No livro, perdura uma atmosfera que remete ao videoclipes com o charme da West Coast americana. Até a mudança abrupta na voz do narrador, que indica uma bad trip em pleno clímax da história, consegue arrebatar na acuidade visual da cena. Acho que poucos livros da cena portuguesa assumem uma postura tão subversiva na forma de narrar.
Algumas Notas sobre Pós-Modernismo
Não poderia me despedir desta crítica literária sem navegar um pouco na grande questão que este livro me suscitou, mas que o ultrapassa.
O livro passa-se num período temporal concreto, em plena crise da Troika em Portugal. Livros escritos no presente, sobre o presente, podem sofrer o problema de não conseguirem distinguir literatura de jornalismo. É justo os autores terem interesse no que vivem, mas, sem suficiente distanciamento temporal da época que analisam, existe real critério do que é ou não relevante incluir como traços distintivos da história que querem contar? Algumas opiniões sobre o livro tendem a concordar comigo: a sobre utilização de referências pós-modernas, da era digital, de memes, confrangeram alguns leitores. Quando me dei de encontro com algumas descrições de referências niche de pop culture, a sensação que deixava não era de meme-do-Leonardo-di-Caprio-no-filme-Once-upon-a-time-in-Hollywood-a-ver-televisão-e-a-beber-cerveja-e-vê-se-na-televisão-e-estica-se-do-sofá-e-aponta type shit. O sentimento era de ligeiro incómodo. O livro apoiava-se profundamente em referências culturais niche da internet, e, sendo eu uma habitante do X/Twitter há mais tempo do que deveria, faladora assumida de portuglish e com demasiadas cross-references da internet, fui obrigada a confrontar-me com a conclusão de que se calhar, no distanciamento que a Literatura exige do nosso próprio presente, os pequenos e próprios shenanigans da era digital não são assim tão relevantes, ou idiossincráticos da era pós-moderna. Não obstante, o Alex tentou, a ver se resultava, uma verdadeira análise de campo se o mundo de referências que povoamos se traduz em verdadeira relevância. Enquanto vítima assumida da pop culture, depois de ler Sinais de Fumo, teria de, cabisbaixa, assumir que não.
Conclusão
Dizia eu no segmento Ideia que agarrarmo-nos às nossas capacidades diferenciadoras funciona até certo ponto. Acho que é a partir desse ponto em que se distingue verdadeiramente quem navegou de forma bem sucedida a onda do trending e da visibilidade, e se passa a verdadeira influência e sucesso no seu significado mais puro. Fico na expectativa que onda vai navegar o Alex para o seu próximo romance. De qualquer maneira, uma coisa temos de dar a Sinais de Fumo: é fresh. A maneira como faz o seu romance funcionar é subversiva - funciona muito mais baseada na forma do que no enredo (pelo menos na minha análise). Ousa assumir-se com entendedor das tendências contemporâneas e a transladar isso para a escrita. Ousa ser muito próprio. Alex Couto tem algo para dizer. Muitos não conseguiriam dizer o mesmo.
Obrigada por leres less than zero.
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Vemo-nos em breve!
Isabel Lobo
Autora de Quando os Rios se Cruzam. https://ritadanova.blogs.sapo.pt/
Review do livro na app Goodreads https://www.goodreads.com/book/show/209676535-sinais-de-fumo?from_search=true&from_srp=true&qid=qCteFlTwkk&rank=1


Obrigada pela referência.